Tese (Doutorado)
Identidade e sobrevivência no morro de São Carlos: representações quantitativas e espaciais entre jovens e adultos
Autor(a):
Fantinato, Maria Cecília de Castello Branco
Orientador(a):
Domite, Maria do Carmo Santos
Ano de publicação:
2003
Unidade USP:
Faculdade de Educação [FE]
Assuntos:
Educação de Jovens e Adultos; matemática (estudo e ensino)
Resumo:
Este trabalho procura compreender as relações entre os conhecimentos matemáticos construídos por jovens e adultos trabalhadores na vida cotidiana e os conhecimentos matemáticos escolares, no momento de retorno dos mesmos ao ensino fundamental. Desde o início conscientizou-se das contradições - já reveladas em outros trabalhos do tipo - entre a existência de formas próprias de raciocínio matemático por educandos jovens/adultos, e algumas dificuldades apresentadas pelos mesmos diante da linguagem matemática escolar. Para tal, foi desenvolvida uma pesquisa etnográfica no morro de São Carlos, Rio de Janeiro, acompanhando a rotina local de um curso de educação de jovens e adultos, assim como aspectos da vida diária dos alunos e da vida comunitária na favela. Buscou-se estabelecer uma atitude dialógica na relação pesquisadora/pesquisados, que se revelou fundamental para a aproximação da pesquisadora do universo da pesquisa, através da dinâmica de estranhamento do familiar e familiarização com o estranho. A etnomatemática, como uma perspectiva de compreender as raízes socioculturais do conhecimento matemático do grupo, tem sido o campo de estudo em termos de fundamentação teórica. Partiu-se de um enfoque mais abrangente, abordando representações quantitativas e espaciais sobre alguns aspectos do cotidiano do morro, encaminhando modos de analisar os processos de construção/representação/utilização de conhecimentos matemáticos pelos educandos adultos, em contextos escolares e extra-escolares. Os resultados indicaram uma estreita associação entre o uso de habilidades matemáticas no cotidiano com a necessidade de garantir formas de sobrevivência, via administração de um orçamento reduzido. Fatores afetivo-emocionais revelaram-se como impulsionadores de algumas estratégias envolvendo raciocínio matemático. Entre elas, notou-se o ato de arredondar para cima a previsão do montante a pagar, evitando-se o constrangimento de ) que o dinheiro disponível não seja suficiente. Da mesma forma observou-se a prática de confirmar um resultado de cálculo pelo uso de dois procedimentos diferentes, por não se confiar o suficiente em apenas um. Algumas dessas estratégias, foram interpretadas como sendo motivadas pela necessidade de se proteger de situações humilhantes, que afetariam a auto-estima desses educandos jovens/adultos. Para os jovens e adultos pesquisados, o mundo da escola e o mundo da vida cotidiana apareceram como separados, assim como os conhecimentos matemáticos pertencentes a um ou outro contexto. Enquanto na vida prática calcula-se para sobreviver, na escola busca-se adequar a um modelo que exige precisão nos resultados. A pesquisa destacou a predominância de aspectos socioeconômicos nos processos de construção/representação/utilização de conhecimentos matemáticos num contexto urbano, evidenciando esse aspecto como significativo fator de identidade, superando os fatores exclusivamente culturais.
ABNT:
FANTINATO, Maria Cecília de Castello Branco; DOMITE, Maria do Carmo Santos. Identidade e sobrevivência no morro de São Carlos: representações quantitativas e espaciais entre jovens e adultos. 2003.Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003.