ACESSAR O MATERIAL TAGS

Baixa Renda

Autor(a):

Riva, Léa Comar

Orientador(a):

Romanelli, Geraldo

Ano de publicação:

2006

Unidade USP:

Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto [FFCLRP]

Assuntos:

família (psicologia); família (organização); classe baixa

Resumo:

Este trabalho examinou a prática de negligência em cinco famílias de baixa renda, cujos pais foram advertidos no Juízo da Vara da Infância e Juventude de Votuporanga-SP, por não cuidarem adequadamente dos filhos. Procurou-se apreender o que os pais entendiam como cuidados a serem dispensados aos filhos, o tratamento que prestavam a eles, as causas da negligência e o modo como agentes do Estado e da comunidade atuavam junto às famílias denunciadas. Os recursos metodológicos orientadores da investigação fundamentaram-se na perspectiva etnográfica. Foram consultados os Pedidos de Providências da Vara da Infância e Juventude de Votuporanga para selecionar famílias autuadas por negligência e os dados foram coletados com cinco pais e cinco mães através de entrevistas orientadas por roteiro temático, gravadas e transcritas na íntegra, e de observação nas residências e nos bairros dos sujeitos. Além disso, desenhos feitos pelos filhos das famílias entrevistadas foram utilizados como material complementar. Os dados foram analisados tematicamente, seguindo o referencial teórico da antropologia. O exame do material coletado mostrou inicialmente o teor das denúncias que constavam nos Pedidos de Providências, as formas de atuação dos agentes do poder público, a reação das famílias diante da legislação criada para proteger crianças e adolescentes e como a negligência tornou-se mais visível com a implantação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o que favoreceu o aumento do número de denúncias, nem sempre verdadeiras. Os resultados revelaram as precárias condições sociais vividas pelas famílias, conseqüência do desemprego dos pais, cujos trabalhos esporádicos eram de remuneração reduzida, bem como o uso constante que faziam de bebidas alcoólicas, e que, conjuntamente, deram origem a algumas práticas de negligência. Esta tornou-se claramente perceptível em uma das famílias, embora nas demais os pais procurassem (continua) (continuação) zelar pelos filhos com os recursos disponíveis, além de manifestarem afeto por eles. O exame dos dados mostrou que a negligência não pode ser entendida apenas no contexto restrito das práticas internas das famílias, pois estas sofrem o impacto de fatores sociais, políticos, econômicos e jurídicos que criam dificuldades para proverem os cuidados necessários aos filhos. A análise da intervenção dos agentes do Estado e de entidades não oficiais permitiu constatar que eles necessitam de maiores informações produzidas por pesquisas de áreas diversas do conhecimento para atuarem de modo mais consistente e integrado. Formas de intervenção que não avaliem as condições sociais e emocionais dos pais poderão ampliar a estigmatização de que as famílias são vítimas, pois elas, sozinhas, não conseguirão resolver os problemas pelos quais foram denunciadas e correm o risco de serem qualificadas como incompetentes para cuidar dos filhos além de serem ameaçadas da perda de sua guarda. Sem a interferência de entidades públicas e privadas, com programas de esclarecimento claros e adequados, e não meramente assistencialistas, mas fundamentados na compreensão da dinâmica interna dessas famílias e de seus vínculos com várias dimensões da esfera pública, os pais não conseguirão superar as dificuldades que conduzem à prática da negligência.

ABNT:

RIVA, Léa Comar; ROMANELLI, Geraldo. A dinâmica do relacionamento entre pais e filhos de famílias de baixa renda: organização doméstica e negligência 2006.Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2006.